sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Resenha do livro Fahrenheit 451


    Não é de hoje que as distopias trazem ânsias reais. A história que se passa no livro Fahrenheit 451, de Ruy Bradbury, trata de uma ânsia pela felicidade. Mas como a queima obrigatória de tantos livros pode demonstrar tal vontade? Cada livro tira um pedaço do longo caminho para a alegria “eterna”. Livros nos fazem chorar, refletir, agir… Tais emoções necessariamente humanas são perigosas para o equilíbrio das nossas vidas. Se fossemos isentos de tais sentimentos, não poderíamos simplesmente viver o agora? Viver de forma insossa sem precupações de tomar grandes decisões e sofrer com elas. O futuro que se passa no livro não é de todo um futuro. Muitos fragmentos são vistos hoje. Vamos para alguns deles.
   O primeiro trata-se do uso de ansiolíticos. Quando Mildred (retrato fiel da abordagem acima) usa pípulas em excesso para dormir, está reafirmando que existe uma tristeza mascarada diante de tal sociedade. Embora o cotidiano seja resumido a trabalhar e receber informações manipuladoras por meio de radioconchas e televisão, nada disso a faz descansar tranquilamente. E isto, nem ela percebe. 
    Outro fragmento acabou de ser comentado: a manipulação pela mídia. Sabemos que isto acontece o tempo inteiro e que cada vez mais as pessoas preferem gastar seu tempo com coisas engraçadas e desnecessárias nas redes sociais. E claro, receber esse tipo de informação está tomando o lugar de informações relevantes e abordadas por profissionais de longa data. O que fazemos hoje ao debater de igual para igual com um especialista de alguma área, nada mais é do que a mesma situação ao queimar livros de especialistas expondo seu conteúdo para nós. Isso não é, da mesma forma, negar tais conhecimentos? Claro que na atualidade existe a diferença da vontade pelo debate e especificadamente de vencê-lo. Já em Fahrenheit 451 as pessoas não querem tocar em qualquer assunto reflexivo.
    Algo que também não está muito longe do nosso futuro são figuras como o sabujo. Diante do estudo de robôs e modificações genéticas, alguma figura sobre-humana auxiliará exércitos e milícias. Mesmo vivenciando tantas manifestações desastrosas ao seu redor, Montag obteve tudo que precisava: a dúvida. Após conhecer Clarisse, questões não pararam de surgir e com elas, o desejo pelas respostas. E foi essa busca pelas respostas e a intuição que os livros eram proveitosos, que ele reinventou sua vida. Ao final, conheceu homens tão corajosos quanto ele. E a esperança, outra característica humana, fortaleceu-se ainda mais em Montag, que junto com aquele grupo, decidiu abrir os olhos de outros.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Noether

Noether. Emmy Noether. Este foi o nome que desejei dar ao peixe que comprei a uns meses atrás. Noether foi uma mulher que colaborou imensamente para física e matemática. Seu teorema sobre simetrias é tão belo, que nenhum outro nome seria melhor para ele. Era pequeno, azul e serelepe. Sua calda, grande e serelepe igual. Diante de tantas opções para comprar àquele dia, ele era apenas mais um. Mas depois que o escolhi, fazia parte do era a minha vida. O êxtase era tamanho, que nem perguntei o sexo. Passei tempos sem saber. Mas de que importa, se eu o amava igual? Usava Noether como um nome unissex. Emmy nunca fez parte do seu nome.
 O áquario que morava era minúsculo. Embora em mim guardasse uma vontade enorme de tê-lo, outra se corroía pela idéia de colaborar com esses aprisionamentos. Comprei um áquario maior, ainda assim pequeno, que me fazia sentir melhor pela situação que havia sido condicionado. Espero que ele tenho sentido o mesmo.
 Eu deveria trocar a água toda semana e fornecer a ração todos os dias. Em todos os momentos que ficou comigo, surgiu ímpetos de melhorar sua vida. Um áquario maior, uma comida melhor, um amigo. Porém, peixes betas são brigões. Para mim, parecia muito dócio. Comida, dava todos os dias. Já limpar o seu lar, eu não o havia com tanta frequência.
 Li que peixes betas são brincalhões. Tentei por poucas vezes que ele seguisse meu dedo na água. Conversei pouco, apenas quando lhe dava o que precisava para sobreviver. Sempre reclamei da condição que muitos humanos são submetidos: aquela de apenas sobreviver. Sendo assim, no tempo em que ele esteve comigo ( perguntei depois seu sexo), poderia ter utilizado meu tempo para que ele fosse mais feliz. Não o fiz. Me arrependo. Hoje ele está morto.
 Nesta situação, morto. Morto eu o olhei. Seu corpo de defunto me deixava triste, era sombrio e acusava tudo que eu poderia ter feito e não fiz. Senti que sua morte me deixou próxima.Como pode? Após a morte, sentir-me mais próxima de Noether? Era uma forma de me redimir. Farei seu enterro.
 Cuidei dele como se ainda tivesse tempo para isto. O trouxe ao interior que sempre visito e farei seu enterro aqui.

Resenha do livro Fahrenheit 451

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